Encontre o Belo o máximo que puder!
- Mariana Mariotto
- há 2 dias
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Considerações durante a visita guiada pela coletiva Adiar a ordem, na Galeria Galatea
No Dia Internacional da Mulher (08 de março), a Gruppa visitou a exposição Adiar a ordem na Galeria Galatea da Oscar Freire. A mostra reuniu seis artistas contemporâneas brasileiras de diferentes faixas geracionais com a curadoria de Fernanda Morse, pesquisadora da Galatea que vem da área das Letras e da Teoria Literária. A exposição ficou em cartaz entre os dias 11 de fevereiro e 08 de março.

Entre paredes majoritariamente brancas, à primeira vista a mostra é tímida e silenciosa. Ela te pede um tempo, um afastamento da vida externa para começar a pensar nas camadas mais profundas de todas as coisas – não apenas no que são, mas o que elas podem vir a ser. Em Por via das dúvidas (2007-2024), Cinthia Marcelle apresenta uma série de folhas de papel e, sobre eles, utiliza do durex para produzir formas e imagens. A artista retira o durex de sua utilidade mais comum e aqui o vemos, a depender de nossa movimentação, como tijolos, muros e ruínas.

O que mais me encantou sobre Adiar a ordem foi essa reunião de trabalhos que partem do Objet trouvé ou da Arte Povera, “arte pobre”, propostas artísticas caracterizadas pelo uso de materiais triviais: papel, fita crepe, durex, pedra, galhos, jornais, barbante, entre outros. A Arte Povera se propõe a estar consciente no aqui e agora, utilizando ou reutilizando aquilo que já se tem no nosso cotidiano. Foi criado na década de 1960 na Itália e adotado por artistas mundialmente reconhecidos, como foi o caso da brasileira Lygia Clark que, pela falta de dinheiro, buscava na rua por materiais com os quais poderia trabalhar. O conceito também aparece em artistas que optam por propostas sustentáveis ou obras de arte popular.
A mostra nos convida a analisar a poesia, os simbolismos, os gestos das obras, que não se oferecem desesperadamente. Como sugere o título, Adiar a ordem instiga uma busca pelo não-convencional, um desafio à regra das coisas, um segredo atrás da porta.


Já na série Há uma observação a ser feita (2023), Carolina Cordeiro recorta palavras de diversos arquivos inutilizados do Centro Cultural de São Paulo (CCSP) e as dispõe sobre folhas de papel em uma série de colagens. Segundo a curadora Fernanda Morse, “o acúmulo de documentos descartáveis está ligado aos excessos da burocracia. […] A artista libera, assim, as palavras de suas rígidas estruturas” (Catálogo da exposição, p. 7).
Apoiando-se no livro Nous sommes des animaux poétiques: l’art, les livres et la beauté par temps de crise (2023), ou “Somos animais poéticos: arte, livros e beleza em tempos de crise”, da antropóloga francesa Michèle Petit, Fernanda Morse defende que o ser humano não é apenas um animal político, mas também um animal poético: “a transfiguração da vida pela arte é a forma que o artista encontra para renovar os sentidos do mundo” (Catálogo da exposição, p. 9).
A curadora também se apoia em um trecho de The hard core of beauty, ou “O duro cerne da beleza”, poesia de William Carlos Williams (1883–1963):
O mais esplêndido não é
a beleza, por profunda que seja,
mas a clássica tentativa
de beleza,
em meio ao charco: a
estrada interrompida, abandonada
quando a nova ponte finalmente entrou em uso.
Ou seja, não falamos de uma beleza teórica em seu sentido universal e filosófico, mas sim de uma beleza relativa e cotidiana, por menor que seja.

Essa busca pela beleza no cotidiano fica evidente em Todos os dias de nossas vidas, série de Leila Danziger. A artista embaralha uma coleção de agendas vazias que encontrou ao desmontar o apartamento de seu falecido pai, experiência também narrada no livro Ano novo (Editora 7Letras, 2016). Resultado do processo de luto da artista, a obra enquadra os dias, semanas e meses dos 90 anos de vida de um homem. Silenciosamente, a obra abre tamanha intimidade para quem a observa.
Ao final da visita, foi impossível não lembrar dos repetidos conselhos de Van Gogh para seu irmão mais novo, Theo:
“Encontre o Belo o máximo que puder! A maioria não encontra o Belo o suficiente” – Vincent Van Gogh em Cartas a Theo (carta 17, p. 29)
Retirei esse trecho da nova edição do livro, lançada no início de 2023 pela Editora 34. Na primeira vez que li Cartas a Theo, da edição da L&PM de 1997, a tradução Holandês–Português estava “Ache o Belo o máximo que puder! A maioria não acha o Belo o suficiente”. Na primeira versão, entendi que Vincent sugeria a Theo que a maioria das pessoas não entendesse o belo como algo suficiente – como se faltasse algo, para além da beleza. Em nosso mundo, pipocado de opiniões e análises e crises dos mais diversos tipos, será ainda possível simplesmente encontrar a beleza das coisas? Será esse o segredo atrás da porta?

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A Gruppa (Grupo Panorâmico de Programas Artísticos) promove experiências artístico-educacionais para mulheres por meio de visitas guiadas e mediações em museus, galerias e instituições culturais locais.
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